TRANSMISSÃO DE HERANÇA PSÍQUICA

O ser humano se constitui nas relações. Nasce dependente e precisa de cuidados intensivos em seus primeiros anos de vida necessitando alcançar certa autonomia para caminhar rumo à sua independência.

As primeiras relações que estabelecemos são com a família. É através dela e de seus membros que nos constituímos. Buscando a sobrevivência, o pertencimento e o amor, nos submetemos às suas regras e valores, suas faltas e excessos. Com nossos pais nos identificamos e criamos alianças inconscientes.

Quando pensamos em herança, somos imediatamente remetidos à ideia de algo que nos foi deixado por alguém. Existem muitos tipos de herança: genética, financeira, intelectual, cultural, social, entre outras, e existe também a herança psíquica. Da mesma forma, ela é algo que nos foi entregue; no entanto, como nosso psiquismo é parte consciente e grande parte inconsciente, nem sempre temos acesso ao que nos foi transmitido.

Faz parte de nossa consciência os valores que são conhecidos entre gerações – os culturais, sociais, religiosos, comportamentos que reconhecemos na família, que se repetem por que funcionaram; experiências significativas, tradições familiares e tudo o mais que aprendemos no evoluir de nossa constituição e educação.

No entanto, existem conteúdos aos quais, conscientemente, não temos acesso.

Conteúdos que foram negados, excluídos da consciência dentro da dinâmica familiar – como mortes, luto, doenças, perdas, falhas, abandonos, separações, vícios, vergonha e tantos outros que nem sempre puderam ser sentidos. Esses conteúdos podem ser guardados dentro de quem os viveu de modo que até deles se esconda no intuito de evitar seu sofrimento. Funcionamos assim. Temos um mecanismo que nos protege daquilo que nos faz mal. Que nos faz “esquecer”, banir da consciência o que nos traria imenso desprazer e dor.

São precisamente esses conteúdos que serão herdados dentro de uma transmissão psíquica patológica. Tudo aquilo que não pôde ser dito, sentido ou sequer pensado. As gerações posteriores carregarão algo que não pôde ser elaborado, trabalhado e modificado.

Muitas repetições doentias que acontecem na família derivam deste processo. Muitas escolhas são feitas de forma inconsciente para levar o indivíduo ao conflito exato que viveu sua mãe, pai ou avós, para tentar absolvê-los ou ainda por lealdade. Sim, existe uma lealdade familiar entre aqueles que se identificam como iguais, como parte da mesma história. Como ser feliz se a mãe e a  avó foram tão infelizes? Esse direito lhe cabe ou será uma traição? Formam-se alianças.

São muitas as questões ligadas a essas transmissões de herança psíquicas e para que sejam trabalhadas a psicoterapia é muito indicada uma vez que permite ao indivíduo se escutar, observar as vozes que falam através dele, rever suas motivações, representações, sentir suas emoções e, em contato com tudo isso, poder fazer escolhas conscientes, ressignificando sua vida e, consequentemente, de suas próximas gerações.